Cynthia Lammel Fogaça, goleira da UFSM Futsal e acadêmica do 8º semestre de Enfermagem, foi convocada para a Seleção Brasileira de Futsal de Surdos e vai representar o país nas Surdolimpíadas de Inverno de 2027, marcadas para ocorrer entre 15 e 24 de janeiro, na Áustria. A confirmação veio em julho, logo após um processo seletivo em São Paulo, e mudou a trajetória de uma atleta nascida e criada em Derrubadas, município de pouco menos de 3 mil habitantes no noroeste do Rio Grande do Sul.
Nascida com surdez total, Cynthia passou por duas cirurgias de oralização - aos 9 e aos 15 anos - e hoje utiliza um implante coclear que lhe permite ouvir. O caminho até a convocação, no entanto, não se resume à superação clínica: envolve duas décadas de bola no pé, uma guinada de carreira para o gol e a rotina dividida entre quadras e bancos universitários.
Da linha para o gol, do interior para a capital paulista
A ligação de Cynthia com o futsal remonta à infância, quando jogava "na linha" nas escolinhas de Derrubadas, muitas vezes ao lado de meninos, já que faltavam colegas mulheres para completar os times. A mudança de posição e de cidade aconteceu de forma simultânea: em 2023, ao chegar a Santa Maria para cursar Enfermagem na UFSM, ela se tornou goleira, função em que desde então vem se destacando.
Hoje, Cynthia reparte a agenda entre três equipes gaúchas - UFSM Futsal, Sport FC de Tupanciretã e o time da Associação dos Surdos de Santa Maria - além dos compromissos com a Seleção Brasileira. O técnico da UFSM, Daniel Correa, destaca a liderança da atleta dentro de quadra e sua versatilidade com os pés, características que ele associa ao "futsal moderno", em que o goleiro participa ativamente da construção de jogadas.
Comunicação em quadra: da voz à Libras
Um dos aspectos mais particulares da rotina de Cynthia é a adaptação constante de linguagem. Com companheiras ouvintes, a comunicação se dá pela voz, em meio aos gritos típicos de uma partida de futsal. Já na Seleção Brasileira de Surdos, apenas quatro atletas são oralizadas, e o diálogo do grupo ocorre em Língua Brasileira de Sinais. Nas competições da modalidade, aliás, nenhuma jogadora pode usar aparelho auditivo durante os jogos, regra que busca equiparar as condições entre as atletas.
Colegas de time descrevem Cynthia como alguém que transformou a condição em método de trabalho, sem jamais usá-la como justificativa. A capitã Estéfane Marzari resume o diferencial da goleira na força de vontade para evoluir em meio às dificuldades de comunicação, enquanto a amiga de infância Eduarda Rasch ressalta a dedicação a quem está ao seu redor, traço que se reflete na confiança que o elenco deposita sob as traves.
Enfermagem, pesquisa e o equilíbrio da rotina
Fora das quadras, Cynthia é bolsista de iniciação científica há três anos e integra o Grupo de Pesquisa Trabalho, Ética, Saúde e Segurança do Paciente, da UFSM, sob orientação da professora Graziele Dalmolin. A docente destaca a determinação da aluna e aposta que a vivência esportiva vai somar à futura atuação profissional, especialmente no olhar sensível à diversidade e à inclusão em saúde.
Conciliar aulas, pesquisa, Trabalho de Conclusão de Curso e treinos em três equipes exige organização diária, segundo a própria atleta, que resume a rotina como uma sequência de pequenos passos. A mesma disciplina que a levou à seleção também sustenta a reta final da graduação.
Expectativa para a Áustria e o próximo patamar
A viagem às Surdolimpíadas de Inverno de 2027 será a primeira experiência internacional de Cynthia e também sua primeira saída do país. Caso o Brasil termine entre os três primeiros colocados na competição, a goleira passa a reunir os critérios para pleitear o programa Bolsa Atleta, do Governo Federal, voltado a atletas e paratletas de alto rendimento.
Antes disso, o foco declarado da atleta é terminar bem o semestre letivo e intensificar os treinos para chegar em condição plena à estreia na competição. Cynthia reconhece que já é vista como referência para pessoas surdas e ouvintes, um papel que, segundo ela, passou a assumir conscientemente a partir da convocação - sem perder de vista que a maior cobrança, hoje, vem dela mesma.